Ilusão

Teu cheiro ainda está em mim.

Choro preso na garganta. O amor não existe mais, não quando já existiram tantos amores e nenhum durou tempo o suficiente.

Acabei de voltar da sua casa, eram pra ser só cinco minutos, mas você pediu pra eu entrar. Nós dois sozinhos acaba sempre em sexo, eu deveria ter desconfiado que levariam mais algumas horas.

Estou tão apegada, que dá medo. Mas não, o amor é só ilusão, não existem príncipes encantados, não existe 'para sempre', não existem promessas. Não para mim, não mais.

É tão bom o tempo que passamos juntos, teus olhos claros, tua barba bonita, as pintinhas na testa... Eu quase falei que te amo, hoje quando nos despedimos, engoli a seco todo esse sentimento estranho, e calei. Engoli junto com a saliva, a dorzinha estranha de querer mas saber que tudo acaba.

Sinto tanta vontade de te abraçar as vezes, você ali do meu lado na frente das pessoas, eu tento disfarçar pra tocar no seu braço, sentir tua pele mas sem que os outros percebam. Ou te apertar como quem não quer nada... E quando você me abraça? Aquelas clássicas borboletas no estômago.

Me parece que tô te amando pra caralho. Mas não, essas coisas não existem mais.


Necropsia


Abrir corpos.

Um animal morto, uma necropsia.

Incisões que não precisam ser precisas, são feitas começando com um sistemático ritual embaixo da mandíbula. Dois cortes um de cada lado. Puxa a língua pra fora. Vai saindo esôfago, traqueia, coração, pulmão.

Se você me perguntar qual meu órgão preferido, te respondo que tenho alguns. O fígado é muito bonito, vermelho escuro, com sua bili verde que quando aperta dá pra ver o fluxo. O pulmão crepitante se pressionado, dá pra sentir minúsculas bolhas de ar estourando. E o coração, músculo forte, cheio de válvulas e compartimentos meticulosamente pensados e criados. E os dois rins, com seus glomérulos e desenhos bonitos quando aberto ao meio.

Um amor: usar bisturis e pinças, tesouras e porta agulhas. A sensação é de liberdade, conhecer o desconhecido, aprender o que poucos sabem.

O sangue escorrendo, o cheiro fétido. O pior aroma de todos os tempos é de um estômago sendo aberto.

Você já viu uma hemorragia interna? Um mar vermelho entre os órgãos. Se abrir mais o tórax, vaza.
Fragmentar o corpo, tirar pedaços dos órgãos, brincar com o pulmão, apertar a bili, divulsionar a pele e músculos.

Mas confesso que depois de toda essa brincadeira, preciso de um banho, parece que tem sangue até dentro dos ouvidos.


Até as seis


São duas horas quando começamos fumar.

Você me pergunta se eu já estou chapada – não to sentindo nada- eu respondo. Pensando que seria assim até o final mais uma vez.

Traguei uma, duas, três, quatro. Nada.

Estou me sentindo normal, só talvez enrole a língua as vezes. Cinco, seis, sete. Nada. Muita fumaça, casa fechada. Trago, puxo ar até o pulmão, seguro, solto. A cozinha se torna nuvem.

Você me diz que já está muito chapado, e eu totalmente sóbria. Nem vai dar efeito.

No final ainda com uma ervinha, ultimo trago. Você vai pro quarto, eu vou para o banheiro. Me olho no espelho, normal. Sento no vaso, normal. Me perco em pensamentos. Nossa, onde está o papel higiênico? Caramba, tem um pacote fechado ali. Abro. Nossa, já tinha um papel aqui, abri atoa. Rio. 
-Nem vou ficar chapada- penso. Ergo o shorts que estava usando até o umbigo, e deixo ele na cintura, demorei perceber que arrumei errado. Rio. Talvez esteja começando fazer efeito.

Saio do banheiro, vou até seu quarto e abro a porta, dou de cara com sua irmã mais velha no computador. Fico confusa, não era pra você estar ali? Demoro alguns segundos pra lembrar que você estaria no quarto ao lado. Fecho a porta rindo muito, vou até o quarto certo, deito do seu lado e conto o que aconteceu. Te digo que não estou chapada ainda. Olho para minhas pernas, elas estão em cima das tuas... falo que eu não faço ideia de como foram parar ali, e que acho que TALVEZ eu esteja UM POUCO chapada. Rio. Você me vendo daquele jeito deveria estar pensando que eu não estava UM POUCO, mas MUITO louca.

Começo a cair na real o quanto tudo estava estranho, as mãos começaram a soar, pensamentos ruins vieram. O desespero de não conseguir fazer parar. Te digo como estou me sentindo, você olha nos meus olhos e diz que é assim mesmo, pra eu ficar tranquila que você estaria ali pra cuidar de mim. Pede pra eu fechar meus olhos, fica bem pertinho, diz pra controlar a respiração. Ficamos assim um tempo. Começo a melhorar das coisas ruins. Agora nós dois deitados na cama, um som de chuva no áudio do celular. É o que eu sempre te digo, nós dois sozinhos sempre acaba em sexo. Desta vez drogas também, só faltou o rock and roll.

Você tira minha roupa, eu tiro a sua. Me perco na tua nudez. Vou por cima. A droga deixa as coisas mais intensas. Com força, gemendo, gostoso. Rebolando, tua mão na minha bunda. Safado. Tua cara de tesão sendo a coisa mais doce em meses. Uma das melhores transas da minha vida, te fodo até não aguentar mais, você me fode até doer os músculos. Enquanto mete com força, diz – Não cansa nunca, mulher -. Você por cima, de frente, de lado, de tudo. Dei tudo.

Tua pele na minha, o fogo arde. Gosto. Você pede mais, goza.


Bruxa


Ela é o mar violento que te arrasta até o fundo, afoga sem deixar morrer, depois trás com calma até a superfície e expulsa pra areia.

Ela é fogo, chama que não se apaga, queima o que toca deixa marcas na pele pra nunca mais esquecer.

Ela é lâmina, corta, mutila e te manda andar até a esquina.

Ela é deusa, comanda e desmanda nas matas, os bichos obedecem, os espíritos correm. Defende com unhas e dentes os seres deste lugar.

Ela é tempestade, alaga as cidades que teu coração quis morar.

Ela é violenta. Persuade, chama pra caverna, faz apaixonar e depois te larga ali no canto pra chorar.

Ela é querida, te chama de vida e te faz querer amar.

Essa mulher é ventania, entra pelas tuas narinas te trás vida, esperança de que tudo vai melhorar. Depois vai embora, sem despedidas, quem mandou querer ficar.



Antônio

Noite passada o céu ganhou mais uma estrela. Eu não estive lá para ser testemunha da terra cobrindo teu corpo, enquanto isso esses pensamentos me atingiam em cassa e eu tentava dissipar. Não por te amar menos, vôzinho, mas por saber que me tiraria toda estabilidade que me restava por te perder.

Chegar todos os dias na tua casa, te dar um beijo, se estivesse comendo desejasse bom apetite- assim como você sempre falou para mim- Perguntar ‘tudo bem?’ e você dizia ‘ah vai indo’, e dar teu sorrisinho que nunca esquecerei.

A bengalinha batendo no chão, denunciando as pernas que precisam de apoio. A cadeirinha no sol, a bondade inesperada com os cachorros (que agora choram tua falta). Os miojos de legume bem temperados. Os passeios pelo quintal. Mandar eu te cobrir com apenas uma coberta porque se não ficará com calor. Aquelas conversas malucas sobre alienígena. Tua vontade de ter uma fazenda e cuidar dos teus boizinhos e outros animaizinhos. Tua mania de querer que eu corte o cabelo no ombro bem curtinho. Me dizia que logo eu ganharia mais peso, por me ver chateada, quando usava sua balança emprestada. Me dava presente e dizia que queria poder dar mais. . A forma que ficava feliz quando eu levava algum doce diferente pra você ‘nossa, mas tudo isso pra mim? Não precisa, vou ficar só com um’.


O senhor é um anjo, vô. Meu coração aperta por saber que está longe agora, eu choro mas sei que Deus fez a vontade Dele. Agora temos mais um pontinho no céu que brilha, que dorme, e que está vivo dentro de mim.